quarta-feira, 18 de julho de 2012

18.07.2012

D20

Pedi licença no posto de saúde para ir ao velório da tia. E hoje, lendo o que escrevi ontem no Facebook e copiei aqui, até me espanto das palavras... O Face é aberto demais, e não costumo me expor assim. Mas as palavras simplesmente brotaram... E acabaram lá.

Meu pai era um entre sete irmãos. Era um dos irmãos do meio, não lembro exatamente qual era a posição dele na família. Tanto a família dele quanto a da minha mãe são de Santa Cruz do Sul. Eles casaram lá e vieram para Porto Alegre logo depois, assim como quase toda a família do pai. 

A família da mãe sempre foi uma família típica alemã, mais rígida, sempre preocupada em fazer tudo certo. A do meu pai era um caso bem diferente. Meu avô era professor de educação física e, numa época em que menstruação era tabu, ele quase matava as alunas dele de vergonha quando falava do assunto. Há uma história muito contada na família sobre meu vô Zé. Naquela época, as casas eram construídas em torno de um corredor central, um cômodo para cada lado, com portas e janelas coincidindo. E, lá em Santa Cruz, o vô e a vó tinham uma vizinha desocupada que vivia olhando pra dentro da casa deles. Um dia meu vô se encheu da bisbilhotice da vizinha, tirou toda a roupa e dançou pelado em cima da mesa da sala, enquanto a vó Joana chorava de rir. Reza a lenda familiar que a vizinha fechou as janelas com um estrondo e não abriu nunca mais... Este era meu vô, há mais de sessenta anos. Lembro pouco do vô e da vó, eles morreram quando eu era bem pequena, a vó de consequências de diabetes e o vô de problemas de pressão, seis meses depois dela.

Sobre meus tios, a parte pitoresca já começa nos nomes. As três mulheres eram Iraci, Ianina e Iralda. Os quatro homens, Irani, Iraty (o meu pai), Irajá e Irapuã. Estas pessoas respondiam respectivamente como tias Cici, Nina e Dada, e tios Nini, Iti, Jaca e Puco. Todos eles casaram e tiveram filhos, e eu tenho uma montanha de primos. 

Se eu fosse definir a família do pai em uma palavra, usaria tumultuada. E se fosse resumir como eles sempre foram, diria que eram pessoas que viviam a vida do jeito DELES. Eram chegados em churrasco, cerveja e brigas homéricas e para toda a vida, que às vezes duravam uma semana e eventualmente se estendiam por quase um ano. Sempre foi uma coisa estranha, uma união que parecia desunida - mas acho que o que mais unia todos eles era esta "desunião" de aparência. Sempre que um deles precisou do outro, o outro estava lá. Chamava de filho disso e filho daquilo, mas ajudava sempre. As lembranças mais marcantes da minha infância eram as festas e churrascos dos finais de semana, aquela mistura de tios, tias e primos, risos, gritaria e quase sempre alguém saindo furioso no final, jurando que jamais voltava. Teve uma vez em que trouxeram enguias para o almoço. Lembro das enguias num tonel com água, mas juro que não lembro se comi aquilo ou não. Outra vez o Tupã, o boxer de um dos meus primos, abocanhou uma bombinha de São João e ela explodiu em sua boca. O cachorro teve uma parada cardiorrespiratória e foi reanimado por uma turma de tios aflitos - os mesmos que tinham atirado a bombinha. Cresci no meio destes tios e primos, até que, com o tempo, fomos nos distanciando um pouco, porque cada uma das famílias cresceu e se estruturou, e passou a ter prioridades diferentes. Não eram mais todos no mesmo churrasco no final de semana.

Meu pai foi o primeiro irmão a morrer. Ele tinha só 49 anos, e infartou de repente. Depois que ele tinha morrido, descobrimos que ele já sabia que estava com problemas de coração, fígado e sei lá o que mais, mas não fazia tratamento algum porque detestava ir a médicos. Ele morreu do jeito que disse que queria: caiu e não acordou mais. Muitos anos depois, faleceram o tio Nini e o tio Puco (o mais velho e o mais jovem da família), os dois de câncer. Depois foi meu padrinho, o tio Jaca. Estava passeando com o neto, caiu e morreu - consequência de pressão alta mal administrada. Depois, a tia Dada, coração também. Caiu, chegou a ser levada para uma CTI, mas não acordou mais. Agora, foi a tia Nina... Ela estava com 73 anos, tinha sete stents no coração, função cardíaca de apenas 30%, fumava teimosamente e era muuuito chegada em carne de porco bem graxosa. Resolveu que ia sozinha ao supermercado fazer as compras do jeito que ELA queria, apesar de ter uma turma de filhos e netos se oferecendo pra ir junto. Caiu, foi atendida pelo SAMU mas não resistiu. Esta era minha tia, bem de acordo com todos os irmãos dela. Como eu disse antes, sempre viveram de acordo com os critérios que eles mesmos se determinavam.

Se a tia Nina era próxima a mim agora? Não. Fazia quase um ano e meio que não nos víamos. Mas não faz diferença. Nestas horas, o que conta é a história, e todos estes tios fizeram parte da minha história. Existe passado, lembranças, vínculos muito mais fortes do que um ano sem se ver. Lembro do jeito da tia Nina, do seu riso, das coisas que ela dizia, e de muitas baganas de cigarro. Lembro dela como sei que ela e todos eles queriam ser lembrados: viva, rindo, brincando e até brigando. Agora, de todos eles, sobrou só a tia Cici, que está com 83 anos. Ela vai sentir muita falta da irmã. De acordo com os primos, as duas assistiam às novelas, cada uma na sua casa, e se ligavam depois, para falar mal dos artistas. Espero que, agora, ela tenha alguma amiga para conversar assim. E tenho certeza que os seis irmãos dela estão juntos lá em cima, cuidando dos daqui de baixo e preparando uma boa recepção para ela, no dia em que ela resolver se juntar a eles. Espero que demore. Não vou dizer que espero que demore bastante, porque cada um tem sua hora, seu momento. "Bastante", às vezes, é cruel demais. Mas sinceramente espero que a tia Cici ainda fique um bom tempo conosco.

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